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Uma paixão de instantes

domingo, 9 de janeiro de 2011




Mike Raimond parecia confuso ao pagar a conta no caixa do supermercado. Suas mãos não pendiam aos seus comandos internos. No caixa, havia uma mulher aparentando estar na casa dos trinta anos. Ela tinha cabelos compridos, que chegavam à metade das suas costas; seus olhos projetavam-se para fora como dois adornos numa delicada jóia, a saber, eles eram castanhos, como se fazendo contraste com a sua pele semi-morena; seus olhos eram rosados, carnudos, tinham acabado de receber uma leve camada de batom-glos; seus gestos pareciam afetados, mas, em descontraste, seu olhar era trêmulo, incapaz de olhar fixamente para alguém sem denotar visível timidez ao fazê-lo.
   Mike ainda não havia se recomposto do mal-estar (se é que aquilo poderia ser chamado de mal-estar). Ele olhava-a de forma confusa. O que é que havia acontecido para que ele tivesse ficado tão abalado ao deparar-se com aquela mulher?, pensava Mike. Mike não poderia estar enganado: ela olhava-o com interesse, como se tivesse reparado que ele também a olhava do mesmo jeito. Mike pôs o dinheiro sobre o balcão; ela entregou as compras a ele, e olhou-o de soslaio. Mike não pôde retribuir o olhar porque seu filho, de dez anos, vinha ao seu encontro, acompanhado de sua mãe.
   Mike, agora com quarenta anos, completava vinte anos de casamento com a sua mulher, Alexandra. Mike sempre sonhara em se casar com uma mulher delicada de feições e de alma; mas o destino não o concedera esse pedido. Alexandra era amiga da família de Mike, e sempre fora perdidamente apaixonada por ele. Embora Mike achasse-a uma boa moça, não encontrara nela substancial favorável para conceber suas intenções em relação ao matrimônio. Alexandra, mesmo sendo calma em suas ações, era uma mulher fria e calculista. Para Alexandra, o mais importante girava em torno do dinheiro; ela nunca tinha tempo para pensar em sentimentos complexos, sempre achava um meio de pôr o dinheiro como intermediário de suas ações.
    A família de Mike não sucedera bem em relação aos negócios; após esse golpe, precisava dum ponto de apoio para reerguer-se. Alexandra apareceu de forma tão inesperada quanto planejada. Em princípio, Mike foi relutante em ceder à proposta de Alexandra, mas não demorou muito para que Mike pensasse em como os seus pais ficariam depois de algum tempo à míngua; Mike acabou despojando Alexandra tendo a alma completamente cravada pelos ardilosos artifícios que ela o havia praticado.
   E assim Mike viveu com a alma morta durante dez anos seguidos. Durante os primeiros dez anos de casamento Mike não a deixara porque seus pais o pressionavam a seguir no casamento "perfeito"; e logo após esse tempo, Alexandra dera à luz a um bebê chamado Pedro Augusto. Esse fato foi quase como um acorde estridente, tocado numa casa de canções refinadas. Mike acordou do pesadelo e ergueu-se para o sonho de ser pai.
   Mike estava na porta de saída do supermercado, posicionando-se de costas para a rua. Alexandra e Pedro Augusto vinham logo ao seu encontro. Mike não pudera ter captado de forma errada: ele notara que a balconista o olhava complacentemente. Ele agachou-se para poder abraçar seu filho.
   Ao sair do supermercado, ambos (Mike e a balconista) trocaram olhares; e neles pôde-se ver uma leve expressão de angústia e uma lágrima marcarem suas faces por completo.


(Gilson G. Motta, Autor)
                                                                    Fim!

Postado por αทg૯ℓ às 19:58  

Marcadores: Meus contos, Meus manuscritos

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