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Sonho

domingo, 16 de janeiro de 2011


Já era tarde da noite, e o sol já se punha há tempo. O vento estava fresco lá fora. A noite afundava mais e mais sobre o panorama que se formava com o contraste das árvores de macieira, que jaziam em cada lateral do caminho até a estrada, e com a casa antiga — com cor marrom-clara, com janelas que pendiam verticalmente ao chão; uma porta longa e pesada, e com um modesto jardim em sua traseira.
    Resolvi sair para fora, pois o sono não viria tão cedo, e tampouco eu queria que ele viesse. À medida que atravessava a porta de entrada, sentia cada vez mais que o vento me chamava ao seu encontro; como se soubesse que eu precisasse limpar a minha alma. As macieiras pareciam bailar e cantar ao serem tocadas pelo vento. E eu quis acompanhá-las nesse bailar. Agora eu estava no meio do caminho. Parei, fechei os olhos, abri os braços e comecei a sonhar acordado.
    Fui acordado por um som que vinha de trás de uma das árvores. Meu corpo gelou, e meus pensamentos voltaram-se àquele estranho movimento que agora se formava atrás da macieira. Andei até a árvore; e quando lá estava eu, pude ver a coisa mais irreal que já vira em frente aos meus olhos — ali estava ela, estendida sobre o chão. Seu tamanho era mediano, parecendo ser apenas uma criança; suas mãos delicadas estavam envoltas por duas luvas brancas; ela vestia um vestido cor-de-rosa, que vinha até aos joelhos, e com bordados floridos em volta dele; em sua cabeça pendiam um mar de cabelos lisos e escuros, às vezes pendendo para o azulado, quando a luz da lua chocava-se em seus fios; sua pele era pálida como à de uma princesa do gelo. E quando abriu os olhos, e olhou-me fixamente, pude notar que eles eram de uma beleza inexplicável.
    Seus olhos castanho-escuros diziam algo que eu esperara ouvir há vida inteira. Com apenas um impulso, toquei em suas delicadas mãos. Ela quis recuar, mas eu a comprimi num abraço. Disse-lhe apenas que não fugisse de mim, e que também não tivesse medo.
    Quando abri os olhos, preparei-me para cruzar a porta de entrada. E pude ver que ventava lá fora. Senti como se tivesse acordado de um sonho. Chegando a uma das macieiras, encontrei uma luva branca. E ali fiquei sentado, esperando até que o sono tomasse conta de mim.

(Gilson G. Motta, autor)

Postado por αทg૯ℓ às 19:17  

Marcadores: Contos, Meus contos, Meus manuscritos

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